Racismo e preconceito, uma doença social que tem cura

Você se considera uma pessoa racista ou preconceituosa? Se essa pergunta for feita nas ruas, ou em qualquer outro lugar, a maioria, para não dizer todos, vai dizer que não. Ninguém se assume racista ou preconceituoso, pois sabe quão feio é ser assim. Porém, não obstante a feitura dessa prática, a maioria de nós é racista e preconceituoso.

O preconceito e o racismo nem sempre são evidentes. Eles se manifestam de várias maneiras, sobretudo em tom de brincadeira, ou através de atos falhos, ou mesmo intencionalmente, mas vem revestido de “ponto de vista”. Racismo não é ponto de vista, racismo é crime e crime inafiançável, diz a Constituição Brasileira, embora eu desconheça alguém que esteja preso por racismo.

Mas o que é racismo? Vamos a algumas definições simplificadas.

Racismo é achar que uma pessoa é inferior por causa da cor da sua pele.

E preconceito é discriminar alguém porque é diferente, ou mesmo porque é igual, mas você não aceita essa semelhança porque aquilo lhe foi classificado pela sociedade como inferior, ou até nocivo.

Racismo e preconceito caminham de mãos dadas, são irmãos gêmeos. Todo racista é uma pessoa preconceituosa e toda pessoa preconceituosa é uma pessoa racista.

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Racismo e preconceito fizeram e continuam a fazer grandes estragos na história da humanidade. O exemplo mais contundente nós encontramos no nazismo e no fascismo. Milhões de judeus foram exterminados simplesmente porque eram judeus. Milhões de negros foram escravizados e exterminados porque eram negros.

Judeus e negros não são seres humanos? Judeus e negros não sentem dor, frio, fome como qualquer outro ser humano? Isso sem falar de outras raças e categorias de pessoas.

Por que então foram e ainda são tratados com discriminação?

Por causa do maldito preconceito, doença de difícil cura, mas que poderá ser erradicada se houver empenho das sociedades na luta contra ela. O remédio está na educação familiar e escolar.

Você sabia que o preconceito mata mais que o câncer?

E que a pessoa vítima do preconceito sofre dores horríveis, e que como qualquer doença grave, dependendo da classe social, ela pode matar?

Você sabe quantas pessoas negras morrem no Brasil e no mundo vítima da violência, seja da polícia ou de grupos de extermínio?

Você sabia que o seu preconceito, aquele que parece inofensivo, é responsável em parte por isso?

Preconceito “inofensivo” (a expressão já é uma ofensa) é aquele que vem travestido de elogios, tipo, “um preto de alma branca”; “é escurinho, mas é gente boa”; “é uma pretinha boazinha “; “é preto, mas é melhor que um branco”, etc. Por trás desse tipo de expressão “ingênua” que você já ouviu sua mãe ou sua avó dizer, há um preconceito implícito no passado e explícito no presente.

Há também o racismo e o preconceito latente, mas ainda sem punição, que vem nas expressões; “serviço de preto”, quando algo é mal feito; ou quando algo não é conveniente, “só podia ser preto”, como sentenciou recentemente William Waach, renomado jornalista da Rede Globo (advertido, mas não punido por essa atitude preconceituosa e racista). Enfim, racismo e preconceito estão por toda parte e em todas as classes sociais, mas nem por isso deve ser visto como “normal”. Não é normal ser racista e preconceituoso.

Mas as coisas não param por aí. Quando se trata de altos cargos e funções é que o preconceito se evidencia com mais nitidez. Aqui vão alguns questionamentos para testar se você tem algum tipo de preconceito, ou não.

Você votaria para presidente da república em um candidato negro, mesmo que ele tivesse uma reputação ilibada?

E num candidato, também íntegro, mas que viesse das camadas mais pobres da população, que fosse, por exemplo, pobre, nordestino, retirante?

E num candidato deficiente físico?

E num candidato assumidamente homossexual ou transsexual?

Talvez você esteja pensando a essa altura: não precisa exagerar!

Então não vou exagerar, mas vou te perguntar: e numa mulher, você votaria para presidente da República? E se essa mulher fosse negra?

A resposta talvez seja, sim, porque o Brasil já teve na presidência da república um nordestino, retirante, metalúrgico e também uma mulher, embora branca.

O que aconteceu com eles?

Foram e continuam sendo vítima do preconceito. Atribuíram a eles os piores atos, e mesmo sem comprovação, são tidos como “os pais da corrupção” no país, como se antes deles e depois deles não existisse corrupção. Mesmo que esses tenham trazidos inúmeros benefícios sociais para os menos favorecidos, mesmo assim são tachados como os piores vilões da história do país. Injustiça? Não só, mas preconceito!

Por que isso? Resultado de uma sociedade racista e preconceituosa, mas que não assume que é.

Racismo e preconceito acontecem também quando eu ajudo a eleger com meu voto um candidato branco, da elite, mesmo que ele tenha um histórico de corrupção.

Racismo e preconceito acontecem quando eu defendo candidatos com atitudes e propostas que não favorecem os pobres ou as minorias.

Racismo e preconceito acontecem quando eu acho que pobre não deveria ter os mesmos bens que eu tenho; nem estudar na mesma escola que meus filhos estudam; nem morar no mesmo bairro que eu moro; nem frequentar os mesmo lugares que eu frequento, entre outros pensamentos e atitudes. Nos EUA e na Àfrica do Sul isso se chamou aparthaid.

Ah, e não pense que isso é comunismo, ou coisa de “petralha”, pois se pensou assim já carimbou seu atestado de racista e preconceituoso. Isso é o evangelho, disse o Papa Francisco. Jesus defendeu os pobres e as minorias discriminadas da época e pediu para fazer o mesmo. Todo preconceituoso e racista deveria ter vergonha de dizer que é cristão, porque isso ofende profundamente a Cristo. O Papa Francisco tem nos chamado a atenção de várias maneiras, mas ultimamente com o dia mundial dos pobres (29/11). Que seus apelos nos leve a pensar e nos converter contra o racismo e o preconceito.

Precisamos erradicar o racismo e o preconceito antes que eles erradiquem a humanidade que ainda resta em nossos corações.

Lembre-se: nenhuma criança nasce racista ou preconceituosa, sentenciou Nelson Mandela. Ela aprende isso na sociedade, seja em casa, seja na escola, ou em outros tipos de convívios sociais. Portanto, racismo é mais que um problema, é uma doença social, e não doença genética. Portanto, ela tem cura. Eis a boa notícia.

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