Política e Meio Ambiente

Jesus chora ao avistar Jerusalém (Lc 19, 41). Qual o motivo do seu choro? O motivo é que ela seria destruída. Diante das lágrimas de Jesus podemos perguntar: quais são as situações que ainda fazem Jesus chorar? E nós, o que nos faz chorar hoje? Ou nada ou ninguém nos faz chorar? Será que nos tornamos tão insensíveis?

São muitas as situações que ainda hoje faz Jesus chorar. Vocês se lembram da tragédia ambiental na cidade de Bento Rodrigues, em Minas Gerais? Jesus continua chorando ao avistar Bento Rodrigues/MG destruída pela lama causada por uma mineradora. O vale do Rio Doce tornou-se num vale de lágrimas, e já não vale quase nada, pois quase tudo foi destruído por empresas que não valem o lucro que têm, embora tentem convencer que vale!

Podemos questionar: que vale é esse? Que empresas são essas que valem de apoio de políticos para continuar explorando predatoriamente o nosso chão. O que valem essas empresas que dizem com suas ações, na prática e na bolsa, que a vida não vale? De que vale a nossa indignação diante desse vale?

Jesus continua a chorar ao ver ações terroristas em qualquer parte do mundo, seja nos Estados Unidos, na França, no Oriente Médio ou aqui. Qualquer tipo de atentado contra a vida é motivo para se comover, seja ele praticado com armas ou explosivos.

Chocam-nos saber de bombas que explodem aviões, lugares públicos ou provados. Bombas que explodem montanhas de pedras para extrair minérios e montanhas de peixes nos rios, ou ainda pior, montanhas de gente que perdem suas casas e suas vidas sem ter como reagir diante de tamanha monstruosidade.

Bombas silenciosas que continuam a destruir ecossistemas e a vida no planeta e poucos se mobilizam contra isso. Jesus continua a chorar quando vê pessoas tão insensíveis, tão desumanas e que ainda se acham ser sua imagem e semelhança! Jesus chora pela nossa insensibilidade frente às tragédias anunciadas, e por fazermos tão pouco ou quase nada para evitá-las.

Que triste ver o Estado, as Empresas, as pessoas ou quaisquer outras Instituições colocando o lucro acima de tudo. O que fazer frente a empreendimentos desta natureza, que em nome do dinheiro, do lucro, destroem cidades inteiras, polui e matam rios importantes, provocando tragédias sem precedente na história do país?

Esse não é motivo apenas para choro, é motivo de mobilização nacional. É motivo mais que suficiente para unir vozes e gritos e clamar neste deserto.

Jesus chora ao ver pessoas indo para as ruas para reivindicar apenas coisas banais, mas não se mobilizam para ir às ruas para gritar contra a exploração de empresas nacionais e multinacionais que provocam danos irreparáveis a humanidade e matam sem piedade. Jesus chora ao ver nossa ignorância porque sabe que mais cedo ou mais tarde seremos todos destruídos como Jerusalém foi destruída.

O evangelho de hoje de Luca 19,41-44 é um forte alerta para os que continuam adormecidos, “deitados eternamente em berço esplêndido” sem perceber a iminência da morte. Não adianta colocar a mão no peito e cantar o hino nacional quando a seleção entra em campo, e não colocar a mão na consciência quando ações como as vistas nos últimos anos acontecem tão perto de nós e nada fazemos para contê-las.

Jesus continua chorando ao ver nossos rios sangrando; nossa fauna e flora sendo dizimadas; nossos ares e águas envenenadas e nossa gente morrendo. Continua chorando ao ver povos já tão sofridos como pescadores, ribeirinhos e cidades inteiras sendo prejudicadas naquilo que têm de essencial para viver, sem que ninguém, ou poucos, gritem profeticamente contra essas atrocidades. Onde estão nossos representantes dos poderes públicos? Como agem nossas leis diante de tudo isso? Como nós reagimos diante de todas essas situações catastróficas?

Quem destrói a vida nestas proporções, atingindo o meio ambiente, o planeta, comete crime contra a humanidade, e deveria ser julgado não apenas no juízo final, mas no Tribunal de Haia, na Holanda, onde são julgadas pessoas que cometem genocídios e outros crimes contra a humanidade. Dinheiro nenhum pagam tragédias desta natureza, mas há quem pense que dinheiro tudo paga. Dinheiro apenas compra a consciência de alguns que deveriam se opor a todos esses acontecimentos, mas são pagos para calarem e continuar agindo como se nada estivesse acontecendo.

Quem tem o dinheiro como seu Deus acha que dinheiro repara tamanho dano. Precisamos mais do que dinheiro para reparar tal estrago e evitar que outros iguais ou piores aconteçam. Precisamos de solidariedade, de amor, de consciência e compromisso políticos e, acima de tudo, de compaixão, porque somente quem tem esse sentimento divino no coração pode se mobilizar para lutar contra esses males que atingem o mundo.

É de chorar! Não é a toa que Jesus chora ao avistar Jerusalém. Temos hoje muitas “Jerusaléns” sendo destruídas, mas somente suas vítimas choram. Não é a toa que muitos estão chorando agora, vítimas dessas tragédias, e vão chorar amanhã, vítimas de outras. Que esse choro – se é que temos ainda capacidade de chorar – seja o primeiro passo para mudar. Eis o apelo do Evangelho supracitado. Leia-o atentamente e busque aplicá-lo na sua vida. Com pequenos gestos como esse podem começar grandes mudanças.

Pe. José Carlos Pereira

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