O ENEM como mais um meio excludente da educação brasileira

Quem já prestou vestibular sabe como esse concurso assustava.
Daí surgiu o ENEM com a promessa de desmistificar o mito do vestibular com avaliação daquilo que o aluno estudou no ensino médio. Porém, fizeram do ENEM um “monstro” pior que o vestibular.

Onde já se viu uma redação com um tema desses (Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil) para jovens que não aprenderam a pensar no ensino médio, e nem na Universidade?
Que país vivem os organizadores do ENEM?

Aposto que a maioria dos organizadores destas provas, e muitos professores, se prestassem o ENEM, não tirariam nota suficiente para entrar num curso superior, e querem exigir tal grau de conhecimento e capacitação de jovens, na sua maioria analfabetos funcionais, que é resultado de um processo educacional chamado de “educação continuada”, isto é, de aprovação automática, sem avaliação do real conhecimento do aluno. E querem no ENEM avaliar os candidatos com provas de níveis altíssimos para a maioria dos que estão ali pleiteando uma vaga numa Universidade pública.

É óbvio que apenas um grupo muito restrito irá tirar nota que seja suficiente para a continuidade de seus estudos numa Universidade pública, e esses não serão na sua maioria alunos de escolhas públicas, mas das escolas particulares mais conceituadas. Tudo isso porque o aluno da Escolha Pública de ensino fundamental e médio continuarão tendo um ensino desqualificado, com professores igualmente desqualificados. Como competir se lhes faltou o básico do básico no processo de aprendizagem?

Isso é mais uma prova que nossos jovens mais carentes vão continuar sem acesso ao ensino superior público, e essa modalidade de ensino continuará para os mais favorecidos, para aqueles cujas famílias têm condições de pagar cursos universitários particulares. Lamentável essa realidade.

Sou totalmente contra esse tipo de critério para o ingresso nas Universidades.

Que avaliem o aluno na sua trajetória estudantil, deste o ensino fundamental, e não com provas absurdas como essa.

Que invistam em Educação, em todos os seus níveis, e não seria preciso provas tão excludentes desta natureza.

O tema da redação deveria ser o próprio ENEM como processo excludente da educação brasileira.

Vejam a contradição deste governo: retira do currículo do ensino médio matérias que ensinam a pensar (Filosofia, Sociologia…) e aplicam um tema para redação que exige o candidato a pensar! Isso é tripudiar na cara da sociedade.

Pra quê então ler pilhas de apostilas, livros e mais livros de literatura brasileira, entre outros textos?

Não seria melhor discutir nos cursinhos e no ensino médio políticas públicas?

É a velha fábula da raposa e da cegonha: “apresento-te o prato que você mais aprecia, mas lhe sirvo num recipiente que você não consegue comer”.

Enfim, não estou dizendo que o tema da redação do ENEM 2017 não seja importante para reflexão e busca de soluções, mas vejo como inadequado para uma prova que visa avaliar alunos do ensino médio.

Ele é ineficiente, pois não se pode avaliar o que não se estudou, discutiu em sala de aula. Muito menos avaliar a capacidade de reflexão dos alunos, uma vez que nosso sistema educacional não está adequado para ensinar a pensar, mas a repetir conteúdo.

O tema é importantíssimo, mas para ser discutido, refletido e buscado soluções entre profissionais da educação, governo e autoridades de diferentes instituições e não para avaliar a capacidade de alunos do ensino médio.

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