O Barco

Imagine um barco na travessia de um mar com muita gente. Esse barco tem um leme e no leme tem um comandante. O papel do comandante é conduzir o barco no rumo certo, desviando das ondas fortes, das rochas e de outros obstáculos. A meta desse barco é chegar noutra margem, bem distante.

Porém, esse barco é de remo. Todos que estão no barco devem remar, exceto o comandante que está no leme. O desempenho desse barco depende dos remadores. Apensar de muita gente no barco, nem todos que nele estão, estão remando.

Há os que se esforçam com seus remos, dando muitas braçadas, mas há os que por alguma razão, ou simplesmente por acomodação ou preguiça, recolhem os remos e fica olhando outros a remarem; há os que não podem remar por terem alguma deficiência, e há os que remam ao contrário, dificultando o deslizar do barco, causando peso aos que remam na outra direção e, muitas vezes não deixando esse barco sair do lugar.

Quando isso ocorre, cria-se um impasse e todos os ocupantes do barco são prejudicados. Os que remam ao contrário acham que a culpa é do comandante que está conduzindo o barco na direção errada e querem tirar quem está no comando para ver se o barco desliza, mas o comandante tem uma tripulação que está com ele e o orienta.

Às vezes essa tripulação não se entende e dificulta ainda mais a condução do barco. Como se não bastasse, fortes ondas fazem o barco balançar, criando instabilidade no barco e desconforto para todos, inclusive enjoos. Tripulação e demais ocupantes do barco não se entendem e criam mais tribulações.

Uns acham que o barco deve continuar seguindo na direção traçada; outros acham que ele deve ir por outra rota e, assim, o barco balança, gira e não sai do lugar. E o pior, corre o risco de afundar. Se afundar, a maioria irá naufragar, porque o barco, apesar de grande, não têm salva-vidas para todos.

Apenas alguns se safarão do naufrágio e esses são os que têm algum tipo de “salva-vidas”. A maioria pobre, que ocupa o convés desse barco, será engolida pelo mar.

Qual seria então a solução? Tirar o comandante e colocar outro no lugar?

Mas os que estão dispostos a ocupar seu lugar no leme não estão preparados para conduzir um barco. Aliás, muitos desses já fizeram outros barcos naufragarem, ou contribuíram para que outros barcos naufragassem.

Não seria o caso, em vez de destituir o comandante do barco, de somar forças, e todos remarem na mesma direção, e assim deixar o barco seguir?

Porém, há quem não esteja preocupado com o barco, mas com lugares que ocupam no barco. Eles querem a primeira classe, ou os lugares que possam ser vistas as melhores paisagens. Esses não sabem, ou fingem que não saber, que se o barco afundar há probabilidade de todos morrerem, não importando o lugar que cada um ocupe no barco.

Mas não, no afã de querer comandar o barco, um grupo, apoiado pelos “comissários” do barco, que se encarregam de dar a notícia de como o barco está sendo conduzindo, incita os ocupantes do barco a terem atitudes que poderão fazer o barco afundar, argumentando que o barco já está afundando e, assim, assustando a todos, colocando os ocupantes do barco em pânico. Pânico num barco a deriva é a pior que pode acontecer.

Porém, o barco ainda não está afundando, apesar do mar revolto e das tempestades provocadas. Ele está apenas balançando porque seus ocupantes estão agitados e fazendo movimentos bruscos que desestabiliza o barco.

O perigo não está nos movimentos dos ocupantes, mas nas decisões que a tripulação pode tomar, mudando a rota do barco, fazendo com que ele retroceda, ou pior, naufrague.

Retroceder significa voltar a obstáculos que já foram superados – e que obstáculos – e naufragar significa afundar mesmo, causando pânico e muitas mortes. Vale lembrar que esse barco já esteve muitas vezes no fundo do mar, mas foi resgatado a custas de muitos esforços, de muitas vidas que foram ceifadas.

É bem preocupante essa história que se repete!

Esse barco, apesar de imenso, parece não ter um memorial descritivo de rotas anteriores e de grandes tragédias já vividas. Ou tem, mas é ignorada.

Que fazer? Pular do barco? Ajudar a remar no rumo traçado? Recolher os remos e assistir? Remar ao contrário e voltar à margem de onde o barco saiu? Apoiar um golpe e destituir o comandante e a tripulação, e permitir que outros assumam o comando, mesmo que esses outros tenham um histórico de barcos deixados à deriva e de grandes naufrágios nos seus currículos?

A decisão é de cada um, mas o resultado atinge a todos.

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