NATAL

Há textos bíblicos, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, que lançam luzes para refletirmos sobre o Natal. Eles obviamente aparecem na liturgia do tempo do Advento, nos seus respectivos anos A, B e C. Aproveitar esses textos e extrair deles ensinamentos sobre o Natal é fundamental não apenas para saber mais sobre esse fato memorável, mas também para que eles nos ajudem a nos tornarmos melhores, pois esse é um dos sentidos do Natal.

Natal é tempo que o nosso coração fica mais sensível e muita gente faz caridade nessa época, ajuda a outros, dá presentes, ajuda uma família carente ou alguém que passa necessidade, ajuda alguma instituição de caridade e ajuda também a própria Igreja da qual ela participa. Tudo porque seu coração ficou mais sensibilizado. Que bom se essa sensibilidade do Natal durasse o ano todo! O mundo seria diferente e Natal seria todo dia, pois todo dia daríamos prova de que Jesus nasceu no nosso coração, pois somente quem traz Jesus dentro de si tem um coração sensível, sente a necessidade dos irmãos, move de modo compromissado com a vida. É isso que nos ensinam os textos escolhidos para essa reflexão.

Eles fazem parte da liturgia do quarto e último domingo advento (Ano C). São textos que nos colocam diante de Maria e Isabel e pede que aprendamos com elas a fazer com que o Natal aconteça de fato, e a senha está em “fazer a vontade de Deus”. Sim, somente fazendo a vontade de Deus é possível que seu reino venha entre nós, como nós pedimos na oração do Pai nosso, ao dizermos “venha a nós o vosso reino”. Por essa razão, logo em seguida dizemos “seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu”. Temos que fazer a vontade dele sempre e não só na época do natal. Tem gente que faz caridade só no natal (e outras nem no natal). Infelizmente quem assim procede mostra seu parco do sentido do Natal, embora esse já seja um bom procedimento, pois pior que fazer caridade somente na época do Natal, é não fazer caridade em época nenhuma.

A Carta aos Hebreus (Hb 10, 5-10), insiste nisso ao mostrar Jesus dizendo: “Eu vim para fazer a tua vontade”. Lembre-se: a vontade de Deus, não a tua, nem a minha! Muitas vezes queremos fazer somente a nossa vontade e não perguntamos ou refletimos se aquela é também a vontade de Deus. Será que é da vontade de Deus que ajudemos as pessoas somente no Natal? Pode ter certeza que não. Ele quer que ajudemos no Natal e em todos os dias do ano. Ajudar somente no Natal não passa de desencargo de consciência, pois às vezes ainda temos a sensibilidade de perceber que não é justo eu ter a mesa farta na ceia, mas tantos irmãos nossos não terem o que comer. Então fazemos caridade para satisfazer a nossa consciência que pesa, ou seja, a nossa vontade. Assim eu posso sentar mais tranquilo à mesa e celebrar com minha família e meus amigos porque já fiz a minha parte.

Porém, quando fazemos a vontade de Deus e não a nossa, as coisas mudam. O salmo 79/80 diz que ao fazermos a vontade de Deus, Deus olha dos altos céus e observa, e vê que o nosso coração é justo, moldável, passível de conversão, de mudança, ele vem nos visitar. O Salmo diz que ele vem visitar a sua vinha, vem visitar a nossa vida, o nosso mundo, isto é, a sua vinha e os seus vinhateiros que somos nós. Ele quer saber como estamos cuidando dessa vinha. Se cuidados dela somente uma época do ano, no caso, na época do Natal, ou se cuidamos o ano inteiro.

No entanto, no natal ele não vem só pra visitar, ele vem pra ficar! Uma visita quando chega pra ficar não é mais visita, é alguém da casa. Se ele se encarnou entre nós, que é o que celebramos no seu Natal, não podemos vê-lo só como uma visita. Ele vem para ficar conosco, é o Emanuel, o Deus conosco. Deus não pode ser só uma visita na nossa vida! Ele tem que fazer parte de nossa vida! Fazer morada em nós como fez em Maria. Assim, ele vem pra todos, mas ele vai socorrer primeiro os mais necessitados. Ele olha para os humildes, os pequenos, os excluídos que estão nos lugares de exclusão e encontra uma forma de incluí-los. Foi assim com a pequenina e insignificante Belém de Efrata, como vemos na profecia de Miqueias (Mq 5,1-14). Aquele lugar esquecido do mundo, que não aparecia no mapa da Palestina, e muito menos no Mapa Mundi, ganhou a Luz das luzes, a visibilidade universal para todos os séculos, porque ali nasceria a Luz do mundo, Jesus.

Esse Deus é mesmo surpreendente, pois ele não parou por aí. Escolheu para ser a mãe do seu filho uma jovem anônima, sem visibilidade alguma. Ao olhar para humildade de sua serva Maria, como ela mesma diz no cântico a ela atribuído (Magnificat), ele olha para todos os pequenos, os invisíveis, que somos quase todos nós, a maioria das pessoas, e a eleva. Como é bom saber que não somos mais invisíveis para Deus. Ser invisível no mundo já é ruim, imagine ser invisível para Deus. E Deus sabendo disso dá visibilidade aos invisíveis. Ele olha dos altos céus para Isabel, já idosa e estéril, e lhe concede um filho para tirá-la da exclusão. Ela se acha indigna desse olhar misericordioso, mas Deus lhe recobre de dignidade.

Quanto a Maria, ela responde ao chamado e é fiel a ele. E Deus vem e faz morada nela. E, com Deus morando nela, fará jus à presença dele na sua vida. Percebe onde estão os sofredores e vai correndo ao encontro deles, e eles são figurados em Isabel e Zacarias que estão vivendo na região montanhosa (Lc 1, 39-45). Eles representam uma categoria e essa categoria está nas regiões montanhosas de ontem e de hoje, ou seja, nos lugares de dificuldade, nos lugares que sobrem para os pobres e excluídos morarem, o lugar dos esquecidos das autoridades e invisíveis da sociedade.

Maria vai apressadamente a esses lugares e nos ensina a fazer o mesmo. Ela está fazendo a vontade de Deus, e a vontade de Deus é que cada pessoa humana se compadeça dos irmãos que sofrem. A vontade de Deus é que nenhum filho seu seja privado da dignidade de ser humano, de filho ou filha dele. Neste caso quem sofre ou quem está necessitado de ajuda é a prima Isabel. Quantas vezes nós não compadecemos de parentes nossos que passam por dificuldade. E às vezes esses parentes são até irmãos de sangue. Mas não precisa ser da família para se compadecer e ajudar, pois deveríamos ajudar a qualquer um, basta que o víssemos sofrendo. Por isso, cabe perguntar sempre: quem são os que estão necessitando de nós?

Maria sentiu isso e vai até lá com muita pressa porque a situação é emergencial, ela vai e estende a mão, e Deus se manifesta nesse gesto. Ela mostra para nós que todas as vezes que somos solidários com quem necessita, Deus se manifesta neste gesto de solidariedade. Natal é isso, Natal é caridade, Natal é solidariedade, Natal é compaixão, porque Deus teve compaixão de nós e veio morar entre nós. Natal não pode ser só um momento. Natal deve ser uma catequese para sermos solidários sempre e não apenas no final do ano. Quem faz caridade só no final do ano não entendeu o sentido do natal, nem da caridade, e não pode dizer que é uma pessoa convertida. É apenas uma pessoa emocionada, sensibilizada pelo momento, mas basta passar essa data e ela volta a ser insensível e dura de coração. E os excluídos continuarão excluídos, e as regiões montanhosas continuarão a existir sem a ajuda dela e sem sua solidariedade. Natal é hoje, é um dia para ser todos os dias, eis o ensinamento de Maria.

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