Gerir dons e talentos

Eu lhe convido a refletir agora sobre os dons, os talentos e outros bens que Deus tem lhe confiado para administrar. Em primeiro lugar é bom que saibamos que tudo o que temos não é para nós, mas para que possamos contribuir com o mundo, e só contribuímos com o mundo partilhando esses bens da melhor forma, colocando-os a serviço. Se assim não procedermos, perde o sentido aquilo que somos ou temos, pois existimos em função do outro ou do mundo. Por essa razão, há uma interdependência entre as coisas criadas. Nada e nem ninguém existe para si. Existimos uns para os outros. Esse conhecimento é básico para uma boa vivência e convivência.

Se cada um guardar para si os bens que Deus lhe confiou, essa pessoa se torna pobre porque tornou um mundo mais pobre. Quando o mundo empobrece, nós empobrecemos. Quando alguém faz algo para tornar o mundo melhor, todos se beneficiam com isso. Por outro lado, quando alguém faz algo que prejudica o mundo, todo mundo é prejudicado. Essa relação que existe entre as coisas criadas nos faz perceber que a minha ação, por menor que ela seja, interfere no mundo, e por isso é importante gerir boas ações para gerar um mundo melhor.

Por exemplo, se Deus me deu o dom de comunicar, seja através da fala e da escrita, se eu me calar, de que me adianta esse dom? Ele não serve para nada. Por isso, cada manhã, ou em qualquer momento do dia, sinto que me falta algo se eu não partilhar esses dons com os outros, seja escrevendo algo nas redes sociais, seja através de minhas homilias, sermões ou palestras, seja através de artigos em Jornais e Revistas, ou através de livros. O dom de falar é um dom profético. Podemos profetizar, isto é, denunciar e anunciar através da fala ou da escrita. Como também podemos profetizar através de ações e reações.

Assim deveria ser com qualquer outro dom. Se você tem o dom de tocar ou cantar, toque e encante o mundo com seu canto. Se você tem o dom de pintar e bordar, pinte e borde, no bom sentido, ou seja, no sentido de deixar o mundo mais bonito com sua arte. Enfim, coloque seu dom a serviço, porque ele vai fazer o mundo ser melhor, ser mais belo e mais humano. Caso contrário, você e o mundo serão extremamente pobres.

Quem não entendeu essa dinâmica da vida, não entendeu a vida. Ou você acha que Deus lhe deu algo para que se ensoberbeça e se sinta melhor do que os outros? Ou então, para guardar para si? Nada disso, ele não te fez melhor por isso, ele te fez diferente, para que a sua diferença faça a diferença no mundo. Ele não te fez melhor, mas ele quer que você faça o mundo ser melhor.

Essa é a explicação da parábola que temos no evangelho de Lucas 19, 11-28, a parábola do homem que partiu para um país distante a fim de ser coroado rei e depois voltar, e que antes de partir deixou aos seus empregados cem moedas cada um, para que administrassem da melhor maneira. Deixar uma quantia igual para todos significa que ele os tratou com igualdade. Deus não faz distinção de pessoas. Embora ele dê dons e talentos distintos, ele não priva ninguém desses bens. A diferença consiste na forma como administramos esses bens. Uns, por seus esforços, multiplicam esses dons. Outros, por medo, comodismo, preguiça ou qualquer outra má atitude, desperdiça esses bens.

Esse rei é Jesus. Ele partiu desse mundo, passando pela cruz, mas ressuscitou no terceiro dia. O país distante é o reino do Céu. Ali ele foi coroado, reconhecido como rei. Enquanto esteve por aqui não foi reconhecido como rei, mas junto de Deus recebeu a coroa da glória. Nós somos os seus servos. Uns bons, outros nem tanto, mas ele trata a todos com igualdade, confiando a todos, responsabilidades. Ele voltará um dia e pedirá contas das “moedas”, isto é, dos dons e talentos que ele confiou a cada um.

E então, como você está administrando esses bens? Está partilhando? Que bom, pois tudo o que se partilha se multiplica. Se estiver fazendo assim, quando ele voltar vai lhe dizer: muito bem, servo bom. Como foste fiel em coisas pequenas, vou lhe dar coisas grandes. Mas se você devolver a ele a quantia igual a que você recebeu, isto é, se não tiver evoluído, se tiver passado pela vida sem ter feito nada de bom, sem ter ajudado alguém, nem partilhado os seus dons, será tido como “servo mau” e perderá até o pouco da vida que lhe resta, porque sobre muito pouco de uma vida quem não vive para servir.

Isso não é nenhuma ameaça de Deus (nem minha), é a dinâmica da vida. Quem não vive para servir não serve para viver, diz uma conhecida expressão. O sentido da vida consiste em fazer o bem. Quem nunca se preocupa em fazer o bem, mas só pensa em si, está perdendo a sua vida, embora acredite estar ganhando alguma coisa com isso. É isso que acontece com os gananciosos, com ou que roubam, ou até mesmo com os acomodados, os egoístas, os que não se preocupam com o seu próximo, os que não se comprometem na construção se uma sociedade mais justa.

Sugiro que você leia e medite atentamente o texto de Lucas 19, 11-28 e procure dar uma guinada na sua vida, melhorando suas ações em prol do seu semelhante, da sociedade e do mundo. Sem perceber você estará tendo uma ação política no verdadeiro sentido do termo, pois política é a arte do bem comum.

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