Escola pública e de samba

No dia do carnaval o pai pergunta ao garotinho que escola ele gostaria de ver campeã naquele ano, e ele responde: – “a pública, pai!”. Eu também torço há anos para essa escola que sempre vejo rebaixada, relegada a categorias invisíveis. Mas mesmo assim ela é ainda a minha preferida. Nela fui integrante em diversas alas e salas, de aluno a professor, de mestre a diretor. Não fui mestre sala, mas enquanto professor eu procurei ser mestre em diversas salas e alas, exercitando a arte de ensinar e fazer rimar substantivos e adjetivos, nomes e pronomes, verbos e advérbios, ajudando a formar pessoas de consciência crítica e não meros repetidores de ideias alheias ou de conteúdos decorados. Uma escola de ideias e ideais. Nesta escola me esforcei para ser um bom professor, não dando respostas, mas ensinando a fazer perguntas, porém tais esforços pareciam em vão, porque lá se vão muitos anos e a cada ano essa escola fica mais triste e sem encanto.

Queria ouvir, não na quarta-feira de cinzas, mas em todos os anos, anunciada as suas notas, e que os jurados lhe dessem dez em cada quesito, mas sabemos que isso não passa de um sonho de carnaval, uma fantasia que termina tão logo termine o julgamento. Não precisa ser nenhum especialista para saber que essa escola não tem ido nada bem no seu desempenho na educação. A sua comissão de frente luta para apresentar o seu enredo com movimentos coreografados, técnicos ou dinâmicos, mas ela segue no descompasso, apesar dos esforços de alguns abnegados professores; sua evolução vai de mal a pior. Em vez de evoluir ela parece retroceder. Há algumas décadas, quem terminava o ensino fundamental, antigo primário, saia sabendo ler, escrever, somar e interpretar. Hoje saem semianalfabetos do ensino médio.

Ainda neste quesito, quando se avalia como ela desenvolve seu conteúdo, muitos dão dez, aprovam, mas esses mesmos integrantes são reprovados na escola da vida fruto da aprovação automática, ou de avaliações sem critérios. Os componentes de uma escola de samba têm que dançar animados para garantir nota no quesito evolução, mas os componentes da escola pública não se animam e nem pensam em evoluir com o ensino, mas apenas ter um diploma. Neste quesito é preciso se mexer, mas poucos se mexem e a educação fica relegada em segundo plano; quanto ao conjunto, pobre escola! Faltam elementos básicos como carteira, quadro, materiais e, pasmem, faltam professores.

Você já viu escola sem professor? Só escola de samba, responde o menino ao pai. Pois é, a escola pública também. Nisso elas se parecem. Porém na escola de samba há empenho e alegria, já na escola pública resta somente à fantasia dos tempos em que professor era respeitado e bem remunerado; na harmonia ela está fora de compasso há tanto tempo. Não há sincronia entre o que se aprende e o que se vive. Semelhantes às escolas de sambas, na escola pública se dança conforme a música, mas a música, o samba enredo dessa escola está fora de tom; no samba-enredo não há enredo, isto é, não há compromisso porque muitos estão enredados com interesses políticos e pessoais, fazendo a educação no país dançar. Assim, pode-se dizer que nem enredo há, porque já não diz mais nada com nada; quem é que protege o estandarte da escola? Quem a defende? Na escola de samba são os mestres-salas e porta-bandeiras, mas na escola pública não se sabe mais quem, pois os educadores estão desmotivados não sem motivos, não há esperança, e se não há esperança o que esperar dessa escola? Não há mais bandeira a defender e a dança, isto é, as aulas, perdem no descompasso de passos tímidos que não se sabe para onde vai; a escola pública vive ainda de alegorias e adereços, mas essas não passam de meras fantasias; é o enredo como é? Na escola de samba enredo é a história contada na avenida. Na escola pública a história parece que não quer ser contada. Porém, resta a fantasia, a ilusão ou o sonho. São esses que ainda fazer com que professores gastem suas vidas a ensinar outras vidas, esperando e sonhando com um mundo melhor, onde essa escola seria campeã um dia. E assim vai, sem evolução, porque tem sido a cada ano um retrocesso; sem bateria, porque apesar da bateria de testes que os seus integrantes precisam passar, eles continuam fora do páreo para as Universidades que de pública só tem o nome. Daria para ficar aqui enumerando uma lista de “nem”, apesar do ENEM. Enquanto nossa maior preocupação for com futebol e com o carnaval, essa Escola pública continuará tendo o pior desempenho, a pior nota no Enem e, assim, continuará caindo e jamais estará no grupo de acesso, e nem entre as da elite das Escolas.

Foto: Caroline Azevedo

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